quarta-feira, 12 de maio de 2010

28 - Na Tabanca dos Melros


Aproveitando a organização do almoço anual do curso de enfermagem da Giselda (da antiga Escola de Enfermagem do Hospital de S.João, no Porto), que decorreu em Braga no passado dia 9, decidimos aproveitar a oportunidade e alinhar num convívio da Tabanca dos Melros, no Choupal dos ditos, em Fânzeres, no dia anterior.
Para além da conveniência de datas - em dias seguidos, 8 e 9 - acresce o facto de contar encontrar no local alguns dos tabanqueiros que vou contactando por aí - Portojo, Carlos Silva, Carvalho, Eduardo Campos, Miguel Falcão e outros - e ainda poder rever o anfitrião/dono do Choupal, o Gil Moutinho, nosso antigo companheiro nas andanças pelos ares da Guiné.
E se o encontro cumpriu conforme prometia, não deixei de ter duas surpresas curiosas, decorrentes de conversas que tive com dois dos participantes no almoço. Ei-los nesta foto, numa conversa particular, o Armando Martins e o Quelhas (peço desculpa se os nomes estão incorrectos, mas estou a fiar-me na minha memória e ela já não é o que era...), que foram, há muito tempo, observadores atentos de episódios em que eu também estive envolvido.
Bom, no meio de uma conversa que estava a ter com o Armando Martins, constatei que tinhamos estado nos mesmos sítios e na mesma época. Assim, antes de embarcarmos para a Guiné, no fim de 1972, estivemos ambos colocados na Base Aérea de Monte Real, eu tirando o curso operacional no F-86 e Fiat G-91, ele colocado no serviço de incêndios (bombeiros). E, tendo ele referido este facto, lembrei-me de um episódio decorrido durante a minha qualificação, numa altura em que já tinha começado a minha adaptação ao Fiat G-91. Nessa altura iniciava-se a utilização regular dos "drop-tanks"* de 120 galões em substituição dos antigos drops de 69 galões (naturalmente com o objectivo de aumentar a autonomia do avião e o tempo disponível na zona do objectivo).
O sistema deveria sofrer de alguns problemas de juventude, pois só sei que na recuperação de uma passe na carreira de tiro da Base um dos "drops" resolveu ir-se embora sem que eu tivesse tido qualquer interferência nesse facto... Devo confessar que tivemos alguma sorte neste incidente - eu e os bombeiros que estavam a fazer a segurança ao local, bem próximos do local em que o "drop"acabou por cair... Felizmente conseguiu-se provar que não tinha havido nabice da minha parte - o que neste caso foi o primeiro pensamento dos veteranos Falcões face à periquitice do Abibe**...
Lembrei-me então de perguntar ao Armando Martins se ele se recordava deste incidente e fiquei surpreendido quando ele confirmou que estava lá naquele dia... A esta distância é realmente curioso como as nossas vidas se vão cruzando com a de outros e só ao fim de muito tempo é que nos damos conta disso...
O Quelhas surpreendeu-me igualmente. Explicava-me ele que tinha estado em Mansabá no ano de 1973 e, lembrando-me eu de um incidente ocorrido com um dos nossos Fiats numa operação no Morés - que obrigou o piloto a ejectar-se - perguntei ao Quelhas se ele se lembrava desse episódio. A veemência com que me respondeu surpreendeu-me, mas depois fiquei esclarecido. Essa operação que eu refiro enquadrava-se numa heli-colocação que tinha sido organizada em pleno Morés, iniciada com um bombardeamento na zona da heli-colocação, avançando depois os helicópteros com pessoal, para os largar no terreno.
Eu era o nº2 da formação e a coisa correu bem até à entrada ao passe do nº4. Por motivos que se desconhecem o avião desse piloto ficou subitamente descontrolado, forçando o piloto a ejectar-se. Imagine-se agora o que é seis ou sete helis dirigindo-se para o local e verem subitamente um avião despenhar-se mesmo à sua frente e um piloto a descer lentamente no seu pára-quedas. É claro que a heli-colocação foi abortada e a primeira preocupação foi recuperar o piloto. Lá seguiram os helis atrás do chefe e vá de pousar os estojos no chão, onde fosse possível. A verdade é que a coisa não correu nada bem e, cancelada a missão, acabámos por perder quase todo o dia a recuperar os helicópteros danificados nessa aterragem inesperado em local difícil. Vá lá, ao fim do dia o saldo era minimamente positivo - o piloto foi recuperado de imediato pelo primeiro helicóptero e os helicópteros danificados tinham conseguido regressar à Base, à custa do esforço dos mecânicos e dos pilotos que foi preciso manter no local... e por cima, para garantir a segurança da operação...
É aqui que entra o nosso camarada Quelhas na história - ela aguardava o regresso dos helis para ser integrado numa segunda leva que iria colocar mais pessoal no terreno. E foi do local em que se encontrava que viu o avião a despenhar-se. O problema com que se deparou foi o facto de ninguém ter acreditado nele... Segundo me confessou, ao longo dos anos foi começando a desconfiar do estado dos seus neurónios... Calcule-se por isso a sua enorme satisfação ao ver confirmada por mim a sua história... ao fim de 37 anos...
Não duvido que estes convívios, para além da sã confraternização entre os ex-combatentes, permitem por vezes momentos curiosos como estes que hoje aqui relato.

Miguel Pessoa

* "Drop-tanks" são depósito externos transportados nos suportes existentes por baixo das asas. Como o nome indica, podem ser ejectados em voo, em caso de necessidade.
** Falcões, assim eram chamados os pilotos operacionais da Esquadra. Os Abibes (uma ave de fraca figura) eram os pilotos em curso, que ainda tinham tudo para provar... (Eram os periquitos lá do sítio...).

1 comentário:

  1. Miguel

    Tens que te disponibilizares para vires aos Melros mais vezes,pois funcionas como terapia
    para teias d'aranha em alguns sotãos.
    Não levem a mal os pacientes.
    Um abraço e beijos para a Giselda

    Gil

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