quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Recordações do Gil Moutinho

A NOSSA MISSÃO
Achei oportuno,dar uma ideia breve e resumida do papel da Força Aérea,na Guiné,nos anos 72/73,na minha óptica de Piloto Miliciano(furriel no meu caso),pois amiúde,me questionam o porquê de termos deixado de voar no período pós-Strellas.
Assim mesmo ,com estas palavras.Claro que contesto veementemente pois está totalmente errada a ideia que têem e explico porquê.
1-Até Março /Abril de 1973,o espaço aéreo da Guiné estava por nossa conta,não havendo grande oposição do IN,salvo em alguns pontos fronteiriços onde tínhamos alguns cuidados para não passar para o lado de lá,pois podíamos ser abonados.Houve alguns casos de atingidos por armas ligeiras sem grandes danos.
Cada tipo de aeronave e respectiva tripulação tinha as missões determinadas em função das suas vocações e especificidades.
O Nordatlas e o Dakota prioritariamente tranportavam tropas e carga em volume elevado,também evacuações em que se justificava o seu uso e sempre só em meia dúzia de pistas no TO.
Os Fiat’s faziam apoios de fogo,a aquartelamentos que fossem abonados,bombardeamentos em zonas pré-determinadas,reconhecimentos visuais complementados por fotografia e só a presença no ar era dissuadora.
Os helicópteros eram fundamentais na guerrilha,principalmente em operações no terreno,com colocação de tropas, a sua recolha,evacuação de feridos,etc e então o heli-canhão era terrivelmente eficaz no apoio às tropas no terreno,sendo temidos pelo IN e benvindos pela NT.
Também partilhavam os tranportes de pessoas,carga geral e evacuados,com os DO’s, principalmente em aquartelamentos sem pista .
Os mesmos DO’s,tinham algumas dezenas de pistas onde aterravam ,todas diferentes e com as suas limitações operacionais, quase todas em terra batida,com inclinações,com curvas,árvores na entrada ou saída,animais,a terminar na fronteira(caso de Buruntuma onde aterrávamos e descolávamos sempre para o mesmo lado não interessando a força e direcção do vento)etc. e onde levávamos cargas diversas,tropas correio(sempre muito apreciado)etc e as evacuações sempre que solicitado,tanto de tropas como civis.
Também fazíamos reconhecimentos visuais e de Posto de Comando Aéreo em apoio de operações em curso no terreno com chefia de graduados do Exercito,armados por vezes com dois ninhos de foguetes de 37mm para apoio imediato às mesmas.
Os T6 ,armados com vários tipos de bombas,de fragmentação,demolição e outras,executavam missões de Bombardeamento em pré preparação de operações,demantelamento de estruturas controladas pelo IN ou em zonas previamente declaradas, por um período de tempo como de intervenção.
Armados com foguetes(72 divididos em dois ninhos de 36,um em cada asa)dávamos apoio a colunas em permanência no ar ou aterrados numa pista próxima e em alerta máximo. Também acompanhávamos navios da Marinha permanecendo no ar até terminar o trajeto.Lembro-me do percurso entre o Geba largo até Xime.
É difícil descrever todas as missões que se executavam no TO,a memória também não está fresca.

2-Depois de Abril de 73 alteraram-se algumas coisas.
A História dos Strellas já foi descrita e dissecada suficientemente.
Quando foi abatido o Ten.Pessoa,sendo o primeiro,não tínhamos noção alguma de que arma seria e muito menos das suas características,o que nos ajudaria nas contramedidas.Nesse mesmo dia,fui um dos primeiros a fazer buscas pois estava em Aldeia Formosa noutra missão(A acompanhar a coluna de Buba para Aldeia)
Tendo sido alvejado com um primeiro míssel,e tendo escapado(ainda não tenho explicação)e o asa da parelha Furr.Carvalho alvejado com mais 2 a 4 mísseis em tiro directo,nunca seria atingido pois os rastos dos mísseis eram bastante visíveis,e isso é que foi importante pois pela primeira vez já se adivinhava que não era uma mera arma convencional,apesar de já ter havido um ou dois episódios anteriores sem consequências e até se atribuíram a outra armas.
A esta distância no tempo, penso, que nesse dia, por precipitação,inesperiência ou azelhice,esgotaram o stock de mísseis existente para os tempos que se seguiram,pois no mesmo dia os ares de Guileje e arredores foram sobrevoados por variadas aeronaves nas buscas do Pessoa,a altitudes de morte certa,e mais nenhuma foi alvejada.

O que foi observado nesse dia foi descrito no respectivo relatório de voo,obrigatório em todas as missões.
Até ao abate do Ten.Cor.Brito,nosso Chefe Operacional,não houve alterações significativas dos procedimentos de voo,não tínhamos informações seguras de que arma e as suas características,para proceder conforme.
Houve a hecatombe do dia 6 abril,na zona de Guidaje,onde foram abatidas três aeronaves,tendo morrido as tripulações e passageiros ,Maj.Mantovani,Furr’s.Baltazar e Ferreira como pilotos.
Nos dias imediatos(2 dias?),com a morte de uma grande percentagem,num pequeno universo de pilotos na Guiné e aeronaves abatidas,sem sabermos com rigor qual a arma,as suas características,que contramedidas adoptar,em choque,e porque não éramos “Kamikase”,paramos para análise da situação e para definição das estratégias a executar.Estavam em questão a nossa segurança, eventuais passageiros e das aeronaves.
A partir destas datas,houve alterações significativas nos procedimentos e parâmetros de voo.
Os bombardeamentos de Fiat e T6 passaram a ser feitos a altitudes superiores às habituais o que lhe retirou alguma precisão.
Houve a recomendação para evitar a altitude de voo entre os ~50 pés(~15 a 20mts) e os ~7500pés(~2500mts), pois eram os parâmetros de eficácia dos Strellas.Os hélis continuaram em altitudes baixas(a rapar) pois não precisavam de alguma altitude para aterrar.Nos DO’s,inicialmente subíamos em espiral à vertical das pistas, até atingir a altitude de segurança,e descíamos à vertical dos destinos.Rápidamente abandonamos esse procedimento,pois com cargas máximas,temperaturas elevadas do ar e dos motores e com uma demora de 30 min. a atingir a altitude,já apareciam alguns problemas técnicos,e começamos a rapar as bolanhas e os rios.
Aqui quando a experiência e conhecimentos do terreno eram verdes poderia haver problemas de navegação e na época seca a visibilidade também era escassa.
Nesta modalidade,as comunicações com a Sala de Operações da BA12(Marte era o indicativo)tornaram-se difíceis e resolveu-se o problema pondo T6´s no ar a altitudes elevadas que faziam ponte às comunicações com as aeronaves que andavam a rapar.
Do início de Abril 73 ao início de Julho não voei,entre 2 meses inoperacional,às custas de um acidente em 2 rodas e 1 mês de férias.Contudo prestei serviço de terra na sala de operações com o control das aeronaves no ar.
De Julho ao fim d’ano,quando terminei a comissão,ainda fiz 161 vôos operacionais em T6 e DO’s o que perfez cerca de 215 horas de voo.
Daqui se conclui que o ritmo operacional se manteve,mesmo com a presença das novas armas no TO,com alterações dos parâmetros de voo e condicionalismos de alguns locais.
De realçar o desempenho de toda a equipa de especialistas,das diversas áreas,que nos colocavam os aviões operacionais com todo o profissionalismo e competência.
Também as enfermeiras paraquedistas que nos acompanhavam,com abnegação e profissionalismo, em inúmeras evacuações merecem o nosso reconhecimento e carinho.
Resumindo, a Força Aérea continuou a voar.
Tentei resumir,muito fica por dizer,outros podem dar a sua achega e corrigir-me,posso falhar nos pormenores e a memória não é eterna.


Gil Moutinho (Furr.Pil Mil. T6’s e DO’s 72/73 Guiné

6 comentários:

  1. "Defendeste a Pátria,cumpriste o teu dever; a Pátria foi ingrata, fez o que costuma fazer (Padre António Vieira)

    Por esta pequena frase, Gil, ainda consegues "ouvir" os parentes do velho do Restelo?

    Comentavam, pelos anos 64/65, que "comíamos criancinhas" e coisa piores.
    Depois do 25A, as piadas ainda eram maiores, mas, como diz o velho ditado: "Os cães ladram, mas a Caravana passa".

    Até compreenderia o desabafo dos que não puderam ser bafejados, se, eles mesmos se esforçassem por cumprir e fazer cumprir o seu Dever Militar.

    Também dizem que era por causa dos SAM7 ou SAM 8?
    Pois, em 64/65 não haviam "Strelas" e não se viam aeronaves, após a Op Tridente, sobre o Cachil-Ilha do Cômo.
    Achas que me deva juntar o meu ao coro dos que "acusam" a Força Aérea de não voar?
    Não, Gil. Não o faço, nem o farei nunca.

    Estava no local e "sabia" das condições e limitações Operacionais para o terreno.
    Assim, tinha que defender a Posição com o Armamento que havia, preparando, planeando e antecipando Objectivos e não estava á espera que os "milagres" nos chegassem a roncar pelo céu.

    Faz bem ler coisas que estão carregadas de Verdade.
    Estou contigo porque, alguns anos antes, consegui perceber que uma coisa é o que se quer, a outra é o que se pode ter.
    Apenas os leigos (muito leigos) podem pensar como relatas.
    ...Afinal, sempre era mais cómodo ter-se as costas quentes!

    Abraços, do
    Santos Oliveira

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  2. Uma pequena rectificação para os mais atentos: evidentemente pretendia referir SAM 6 e SAM 7.
    As minhas desculpas pela gralha.

    Santos Oliveira

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  3. Vou deixar aqui um comentário do Carlos Silva, porque ele só percebe de "sites"

    E fotos amigo?
    A malta gosta de ver os pilotos a voarem. ah aha aha
    CS

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  4. Meu Caro Amigo Gil e Grande Piloto

    Gostei de ler o teu testemunho que corresponde ao que tenho ouvido de outros camaradas, incluindo o nosso camarada Cor Miguel Pessoa, então Ten Pil Aviador quando foi abatido para os lados do Sul da Guiné e outros camaradas da Aviação.
    Ainda no passado dia 2 na Tab da Linha ouvi pessoalmente da boca do nosso camarada Miguel Pessoa em resposta a outro nosso camarada do Exército, e outros arautos da verdade que votam faladura na Tabanca Grande da inoperância da FA, camaradas esses que estavam em todo o território da Guiné como controladores aéreos e como tal são os senhores da verdade absoluta, até porque além de controlarem todo o território, também são especialistas da FA.
    A rapaziada do PAIGC é que eram os valentes e enquanto possuidores de pouco mais de meia dúzia de mísseis, já controlavam a FA, o território, enfim, ocupavam efectivamente toda a Guiné e nós os “macacos” estávamos encurralados no Ilhéu do Rei.
    Não quero com isto dizer que tal arma não teve influência no comportamento da FA, mas daí até ficarmos encurralados no Ilhéu do Rei para a partir daá sermos evacuados para navios fundeados no alto mar vai muito longe.
    Apesar de ter lido alguns testemunhos de camaradas da FA no Blogue da Tabanca Grande, deveria haver mais, para ver se esses arautos da verdade e controladores de todo o território, de uma vez por todas se convencem do contrário.
    São dos tais, que actualmente reivindicam, uma enfermeira, um médico, um polícia e outros mais técnicos à sua porta de casa.
    Só quem não quer ver a realidade, é que não quer compreender o que efectivamente estava em causa.
    Haveria mais para desenvolver, pois o tema ainda não está dissecado como tu dizes, porque são mais as vozes duvidosas, do que a certeza das boas nozes.
    Gostei do teu Testemunho
    Um abarco amigo
    Carlos Silva

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  5. POR FALAR EM SÁBADO - AMIGO CONTA COMIGO E AVISA O GIL....






    BELO RESUMO QUE ELE FEZ E ENTENDO QUE EFECTIVAMENTE A TABANCA MUITO PODERÁ FUNCIONAR DE RECORDAÇÕES - ALIÁS AS SOLIDARIEDADES DÃO-SE A PARTIR DE UM PONTO QUE EM QUALQUER DAS NOSSAS TABANCAS TIVERAM UM PONTO COMUM - A GUERRA... VAMOS CONTANDO CLARO...


    UM ABRAÇO JORGE,


    DAVID

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  6. Caros Camaradas,

    É evidente que a Força Aérea teve sempre as suas lacunas pois por muito que fizessem e fizeram, nunca foram suficientes em número quer de aparelhos e homens para nos levarem o correio em devido tempo, os frescos para passarmos um bocadinho melhor, para nos safarem a pele quando estávamos a embrulhar, quer no mato, quer nos aquartelamentos. Isto deve ter sido sempre o pensamento das forças terrestres independentemente do tempo em que lá estivemos.
    Eram as contingências dos tempos em que se contavam todos os tostões e qualquer aeronave devia custar uma porrada deles.
    Se fosse agora com este governo ganhavamos a guerra em três tempos,
    pois compravam logo a produção toda de caças e o PAIGC estava feito.

    Um grande abraço para todos,
    Adriano Moreira - Cart 2412 "SEMPRE DIFERENTES"Fur.Mil.Enf. Bigene, Binta,Guidage e Barro. 1968/70.

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