Mostrar mensagens com a etiqueta Mansoa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mansoa. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 5 de julho de 2010

P34 - Um grito do Manuel Quelhas


Pensei que a guerra já tinha acabado há longos anos, mas afinal com estes encontros, dei por mim a lembrar-me de situações que ainda não esqueci.
Vou relatar um caso que até hoje não consegui esquecer.
Era Maio de 1973 ( se a memória não me atraiçoa), estávamos em plena época das chuvas.
O dia estava lindo e a tarde começara há bem pouco tempo. Tínhamos recebido instruções para nos prepararmos para fazer uma coluna a Mansoa. Há que fazer todos os preparativos que a missão assim o exigia. A tarde estava quente embora estivessemos na época das chuvas, portanto não podíamos esquecer o cantil da água e vai daí eu e o Bonilha ( nome carinhoso, de nome próprio Alexandre), que era do 1º pelotão, enquanto enchíamos os cantis de água ele lá me ia dizendo:
Quelhas não gosto nada desta coluna.
Tem calma Bonilha, Não há-de ser nada, não há-de ser nada, vais ver que é apenas mais uma coluna, ainda havemos da fazer muitas outras, daqui a pouco já cá estaremos novamente. Mas o rapaz, que era uma belíssima pessoa, parecia não acreditar muito em mim, mas lá tentei encorajá-lo, sabe Deus como, pois tinha plena consciência do perigo que representava aquela coluna.
Bom lá nos dirigimos para as viaturas que já estavam preparadas para arrancar. Não sei ainda hoje o que se passou, mas pareceu-me que havia qualquer desentendimento entre oficiais e furrieis sobre qual o pelotão que deveria ir na frente ( eramos dois pelotões, 1º e 2º ). Não quero adiantar mais sobre isso, mas julgo, se a memória não me está a atraiçoar, que cheguei a trocar de viatura, estava na 2ª e vim para a 3ª.
Bom o Alferes Silva ( Oper. Especias) dá ordem para arrancar.
Lá para os lados de Mombocó, a uns quilómetros de Cutia rebentou uma emboscada terrível. Era fogo por todo o lado, RPGs a rebentar, viaturas destruídas, etc etc. Lá conseguimos depois de muito tempo debaixo de fogo que o inimigo recuasse. Depois de tudo isto levanto-me e vejo um cenário inesquecivel, Gente muito ferida a precisar de ajuda, o Enfermeiro que por sinal era um furriel, dava em doido, não conseguia prestar assistência a todos aqueles rapazes. No meio daquela confusão havia alguns camaradas que jaziam mortos, vejo um, outro e outro, e ainda outro que não consegui identificar, pergunto a um camarada, quem é esse colega?
Respondeu-me.
É o Bonilha.

Nesta emboscada sofremos 4 baixas e 18 feridos, 9 dos quais vieram evacuados para o Hospital de Lisboa, inclusivé o comandante da Coluna, o Alferes Silva( Ranger)